segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Filme: "O cortiço" (1978)


O filme "O cortiço" (1978), dirigido por Francisco Ramalho Jr., tem seu roteiro baseado no livro homônimo de Aluísio Azevedo, considerado o autor mais importante do estilo naturalista na literatura brasileira. Com Armando Bógus, Beth Faria, Mário Gomes e grande elenco, o conta-se a história da estalagem e das relações sociais regida por fatores deterministas, bem dentro do esquema "romance de tese" praticado no final do século XIX.

terça-feira, 7 de maio de 2013

NA TRIBO DOS SUBSTANTIVOS




Quem me contou foi um moleque lá da rua.

O clima já não andava bom muito lá na Floresta Gramatical, devido às intensas chuvas de palavras, que estavam cada vez mais constantes naquela região. Mas ninguém imaginaria o que estava para acontecer na Tribo dos Substantivos, que fica pra lá das bandas da Morfologia, divisa com a dos os Artigos e a dos Adjetivos.

Os Substantivos sempre foram um povo ordeiro, de tradição muito rica e respeitada. Os ancestrais são chamados de Primitivos, pois acredita-se que deles derivou-se toda a raça, dividida em gêneros masculino e feminino (mas também é possível encontrar os comuns de dois, os sobrecomuns e os epicenos, que podem deixar muita gente de cabelo em pé!).

Nessa tribo há os Substantivos Simples, que fazem atividades mais leves e cotidianas por serem menores, e os Compostos, que se valem do tamanho para realizar os trabalhos de força. É realmente muito interessante e diferente a sua organização social: há os Substantivos Comuns ­– a grande massa indistinta e generalizada chamada de povo – e os Próprios – aqueles que têm um nome e representam a elite dominante, questão de prestígio!

Há também intelectuais: os Abstratos, por exemplo, sempre tão aéreos com suas questões metafísicas difíceis de entender – são políticos de direita –, e os Concretos, que parecem ter os pés mais no chão e participam de movimentos populares, comunidades de base, sindicatos e partidos políticos – esses são de esquerda!

Mas tudo o que estava tão bem distribuído saiu da ordem com a tempestade, obrigando o chefe da tribo a construir abrigos para os substantivos, que agora chegavam em coletivos. A tempestade ia aumentando e os abrigos todos desmoronando... num instante tudo estava alagado. Foi uma catástrofe. De longe, via-se a correnteza arrastando tudo o que estava pela frente: livro guarda flor palma-de-santa-rita pernilongo arvoredo cidade Brasil bando ética honestidade ladrões congresso paixão amor ódio amor...

– Como é que isso tudo terminou? Sei lá! O danado do moleque saiu sem me contar o final da história. Foi correndo pra casa, arrumar essa bagunça na cabeça.

Márcio Hilário
1998-1999

quarta-feira, 20 de março de 2013

FIGURAS DE LINGUAGEM: METONÍMIA


Das figuras de linguagem, uma das que mais me fascina é a metonímia. Explico: ao contrário da metáfora, que se estrutura a partir da combinação de palavras que pertençam a campos semânticos distintos, a relação metonímia se estabelece dentro de um mesmo contexto. 

Explico melhor: para construir uma metáfora, basta pegar duas coisas completamente diferentes e reconhecer entre elas algum tipo de identidade. Por exemplo, aquela famosa cobrança de falta do Branco na Copa do Mundo de 1994 ficou conhecida como "A bomba santa". Enfim, foi associado o "chute forte" do jogador a um "disparo de canhão". Isso é metáfora.

Agora explico minha preferência pela metonímia: o princípio de contiguidade que a rege exige um olhar muito mais atento para estabelecer a correlação que articula o todo e as partes. Deixemos o mestre Machado de Assis nos mostrar como se faz: 

"Guiomar, que estava de pé defronte dele, com as mãos presas nas suas, deixou-se cair lentamente sobre os joelhos do marido, e as duas ambições trocaram o ósculo fraternal. Ajustavam-se ambas, como se aquela luva tivesse sido feita para aquela mão." (A mão e a luva, 1874 - grifos nossos)

Observemos que maravilhosa forma de colocar em primeiro plano o caráter dos personagens: ao invés de dizer que eram ambos, marido e mulher, ambiciosos, o escritor preferiu dizer que "as duas ambições" se beijaram. Por isso, então, eles se ajustavam perfeitamente como a mão e a luva. Lindo!

E para deixar tudo ainda nos membros superiores, segue uma belíssima canção de Almir Guineto e Zeca Pagodinho, na qual as mãos são também referências metonímicas para pessoas, caracteres e atitudes. Vale a pena conferir!


Márcio Hilário.



domingo, 3 de março de 2013

O USO DOS PRONOMES PESSOAIS ("Filma eu" RJTV)



Recentemente o RJTV, jornal local da Rede Globo de televisão, lançou uma campanha intitulada "Filma eu". Essa expressão, que foi popularizada pelos torcedores dos clubes de futebol durante as transmissões televisivas das partidas, embora seja muito simpática, não está de acordo com o que prescreve a norma culta da língua portuguesa no que se refere ao uso dos pronomes pessoais.

Tais pronomes, de uma maneira geral, têm o papel de substituir o substantivo na frase. No entanto, de acordo com a função sintática exercida por esse substantivo, muda o caso do pronome. Por exemplo, os pronomes pessoais do caso reto - eu, tu, ele, ela, nós, vós, eles, elas - funcionam como sujeito da oração. Por isso, no caso da expressão "Filma eu", como o verbo está na modo imperativo e na 2ª pessoa do singular, o sujeito é Tu, que não está expresso na frase. Sendo "filmar" um verbo transitivo direto, o objeto direto, ou seja, quem deve ser filmado, precisaria ser expresso por um pronome oblíquo. Logo, segundo a norma, o ideal era dizer "Filma-me" ou "Filma a mim" (me: pronome oblíquo átono / mim: pronome oblíquo tônico).

Independentemente da adequação ou inadequação ao que foi prescrito por uma norma, é fundamental que se perceba que a língua é um organismo vivo que oferece muitas possibilidades de uso e de criação, seja repeitando ou subvertendo as regras. O que importa mesmo é que não haja preconceitos ou rótulos. Marisa Monte, por exemplo, já gravou uma belíssima canção chamada "Beija eu", ao passo que Zeca Pagodinho, por sua vez, gravou outra igualmente bela intitulada "Beija-me".


Portanto, é até interessante que o RJTV faça sua campanha do "Filma eu". O que não pode é que as Organizações Globo, quando convém à sua linha político-ideológica, queira bancar uma de defensora do bem falar e do bem escrever da nossa língua, como o fez quando criticou o Enem por, segundo o jornal O Globo, valorizar mais a linguagem coloquial do que o padrão o culto. Enfim, não se pode ficar em cima do muro: ou banca uma visão conservadora e preconceituosa tirando sua propaganda do ar, ou aceita o uso coloquial como legítimo. Não dá é para dizer que o "erro" é sempre dos outros.

Márcio Hilário.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

"LÍNGUA: VIDAS EM PORTUGUÊS" (Documentário)





"Língua: vidas em português" (2002), de Victor Lopes, é um excelente documentário no qual se apresentam as diferenças culturais e individualidades existenciais daqueles que acordam e dormem em língua portuguesa em todo o mundo. Na sinopse do DVD lemos o seguinte:

"Filmado em seis países: Portugal, Moçambique, Índia, Brasil, França e Japão. Trata de histórias da língua portuguesa e sua permanência entre culturas variadas do planeta, mostrando o cotidiano de personagens ilustres e anônimos de quatro continentes. Em cada um deles, a língua portuguesa juntou deuses, melodias, climas, ritmos. Misturou-se aos alimentos e às paisagens. Foi reinventada centenas de vezes e alimentada por levas sucessivas de colonizadores, imigrantes e descendentes."

Dentre tantos depoimentos maravilhosos, destaco uma das falas do nosso querido e saudoso escritor português José Saramago, primeiro e único de nossa língua a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura. Vejam que coisa linda:

"Se o leitor, o leitor de livros, aquele que gosta de ler, não se limitar àquilo que se faz agora, se ele andar pra trás, se ele começar do princípio, se ele pode ler os primitivos, e os grandes cronistas, e depois os grandes poetas, a língua passa a ser algo mais do que um mero instrumento de comunicação. Transforma-se numa, digamos, fonte inesgotável de beleza e de valor. Pensemos que são, no nosso caso, oito séculos de pessoas a falar Português e a escrever Português. Muita coisa se perdeu, evidentemente, mas aquilo que ficou, aquilo que sobrou, aquilo que os arquivos e as bibliotecas guardam, dava para passar lá a vida inteira mergulhado na Língua Portuguesa."

Vale a pena conferir!

Márcio Hilário.