terça-feira, 7 de maio de 2013

NA TRIBO DOS SUBSTANTIVOS




Quem me contou foi um moleque lá da rua.

O clima já não andava bom muito lá na Floresta Gramatical, devido às intensas chuvas de palavras, que estavam cada vez mais constantes naquela região. Mas ninguém imaginaria o que estava para acontecer na Tribo dos Substantivos, que fica pra lá das bandas da Morfologia, divisa com a dos os Artigos e a dos Adjetivos.

Os Substantivos sempre foram um povo ordeiro, de tradição muito rica e respeitada. Os ancestrais são chamados de Primitivos, pois acredita-se que deles derivou-se toda a raça, dividida em gêneros masculino e feminino (mas também é possível encontrar os comuns de dois, os sobrecomuns e os epicenos, que podem deixar muita gente de cabelo em pé!).

Nessa tribo há os Substantivos Simples, que fazem atividades mais leves e cotidianas por serem menores, e os Compostos, que se valem do tamanho para realizar os trabalhos de força. É realmente muito interessante e diferente a sua organização social: há os Substantivos Comuns ­– a grande massa indistinta e generalizada chamada de povo – e os Próprios – aqueles que têm um nome e representam a elite dominante, questão de prestígio!

Há também intelectuais: os Abstratos, por exemplo, sempre tão aéreos com suas questões metafísicas difíceis de entender – são políticos de direita –, e os Concretos, que parecem ter os pés mais no chão e participam de movimentos populares, comunidades de base, sindicatos e partidos políticos – esses são de esquerda!

Mas tudo o que estava tão bem distribuído saiu da ordem com a tempestade, obrigando o chefe da tribo a construir abrigos para os substantivos, que agora chegavam em coletivos. A tempestade ia aumentando e os abrigos todos desmoronando... num instante tudo estava alagado. Foi uma catástrofe. De longe, via-se a correnteza arrastando tudo o que estava pela frente: livro guarda flor palma-de-santa-rita pernilongo arvoredo cidade Brasil bando ética honestidade ladrões congresso paixão amor ódio amor...

– Como é que isso tudo terminou? Sei lá! O danado do moleque saiu sem me contar o final da história. Foi correndo pra casa, arrumar essa bagunça na cabeça.

Márcio Hilário
1998-1999

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