Quem
me contou foi um moleque lá da rua.
O clima já não andava bom muito
lá na Floresta Gramatical, devido às intensas chuvas de palavras, que estavam
cada vez mais constantes naquela região. Mas ninguém imaginaria o que estava
para acontecer na Tribo dos Substantivos, que fica pra lá das bandas da
Morfologia, divisa com a dos os Artigos e a dos Adjetivos.
Os Substantivos sempre foram um
povo ordeiro, de tradição muito rica e respeitada. Os ancestrais são chamados
de Primitivos, pois acredita-se que deles derivou-se toda a raça, dividida em
gêneros masculino e feminino (mas também é possível encontrar os comuns de
dois, os sobrecomuns e os epicenos, que podem deixar muita gente de cabelo em
pé!).
Nessa tribo há os Substantivos
Simples, que fazem atividades mais leves e cotidianas por serem menores, e os
Compostos, que se valem do tamanho para realizar os trabalhos de força. É
realmente muito interessante e diferente a sua organização social: há os
Substantivos Comuns – a grande massa indistinta e generalizada chamada de povo
– e os Próprios – aqueles que têm um nome e representam a elite dominante,
questão de prestígio!
Há também intelectuais: os
Abstratos, por exemplo, sempre tão aéreos com suas questões metafísicas
difíceis de entender – são políticos de direita –, e os Concretos, que parecem
ter os pés mais no chão e participam de movimentos populares, comunidades de
base, sindicatos e partidos políticos – esses são de esquerda!
Mas tudo o que estava tão bem
distribuído saiu da ordem com a tempestade, obrigando o chefe da tribo a
construir abrigos para os substantivos, que agora chegavam em coletivos. A
tempestade ia aumentando e os abrigos todos desmoronando... num instante tudo estava
alagado. Foi uma catástrofe. De longe, via-se a correnteza arrastando tudo o
que estava pela frente: livro guarda flor palma-de-santa-rita pernilongo
arvoredo cidade Brasil bando ética honestidade ladrões congresso paixão amor
ódio amor...
– Como é que isso tudo terminou?
Sei lá! O danado do moleque saiu sem me contar o final da história. Foi
correndo pra casa, arrumar essa bagunça na cabeça.
Márcio Hilário
1998-1999

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