domingo, 3 de março de 2013

O USO DOS PRONOMES PESSOAIS ("Filma eu" RJTV)



Recentemente o RJTV, jornal local da Rede Globo de televisão, lançou uma campanha intitulada "Filma eu". Essa expressão, que foi popularizada pelos torcedores dos clubes de futebol durante as transmissões televisivas das partidas, embora seja muito simpática, não está de acordo com o que prescreve a norma culta da língua portuguesa no que se refere ao uso dos pronomes pessoais.

Tais pronomes, de uma maneira geral, têm o papel de substituir o substantivo na frase. No entanto, de acordo com a função sintática exercida por esse substantivo, muda o caso do pronome. Por exemplo, os pronomes pessoais do caso reto - eu, tu, ele, ela, nós, vós, eles, elas - funcionam como sujeito da oração. Por isso, no caso da expressão "Filma eu", como o verbo está na modo imperativo e na 2ª pessoa do singular, o sujeito é Tu, que não está expresso na frase. Sendo "filmar" um verbo transitivo direto, o objeto direto, ou seja, quem deve ser filmado, precisaria ser expresso por um pronome oblíquo. Logo, segundo a norma, o ideal era dizer "Filma-me" ou "Filma a mim" (me: pronome oblíquo átono / mim: pronome oblíquo tônico).

Independentemente da adequação ou inadequação ao que foi prescrito por uma norma, é fundamental que se perceba que a língua é um organismo vivo que oferece muitas possibilidades de uso e de criação, seja repeitando ou subvertendo as regras. O que importa mesmo é que não haja preconceitos ou rótulos. Marisa Monte, por exemplo, já gravou uma belíssima canção chamada "Beija eu", ao passo que Zeca Pagodinho, por sua vez, gravou outra igualmente bela intitulada "Beija-me".


Portanto, é até interessante que o RJTV faça sua campanha do "Filma eu". O que não pode é que as Organizações Globo, quando convém à sua linha político-ideológica, queira bancar uma de defensora do bem falar e do bem escrever da nossa língua, como o fez quando criticou o Enem por, segundo o jornal O Globo, valorizar mais a linguagem coloquial do que o padrão o culto. Enfim, não se pode ficar em cima do muro: ou banca uma visão conservadora e preconceituosa tirando sua propaganda do ar, ou aceita o uso coloquial como legítimo. Não dá é para dizer que o "erro" é sempre dos outros.

Márcio Hilário.

2 comentários:

  1. Lembra-me da adaptação do conto Alice no País das Maravilhas, onde a tradução do frasco que a faz encolher é "Bebe eu", tendo-se, mais tarde, em outras edições, convertido-se em "Beba-me" ou "Me beba".

    ResponderExcluir
  2. Maravilha! Pimenta só mesmo nos olhos dos outros. O mesmo ocorreu com o livro didático em que a autora dizia que se pode falar "Nós pega o peixe!", lembra? Só faltou queimarem o livro em praça pública. E muitos puristas fingiam não enxergar que não existe "falar certo". O que existe é "falar de acordo com a norma culta".
    Um abraço!!!

    ResponderExcluir