quarta-feira, 20 de março de 2013

FIGURAS DE LINGUAGEM: METONÍMIA


Das figuras de linguagem, uma das que mais me fascina é a metonímia. Explico: ao contrário da metáfora, que se estrutura a partir da combinação de palavras que pertençam a campos semânticos distintos, a relação metonímia se estabelece dentro de um mesmo contexto. 

Explico melhor: para construir uma metáfora, basta pegar duas coisas completamente diferentes e reconhecer entre elas algum tipo de identidade. Por exemplo, aquela famosa cobrança de falta do Branco na Copa do Mundo de 1994 ficou conhecida como "A bomba santa". Enfim, foi associado o "chute forte" do jogador a um "disparo de canhão". Isso é metáfora.

Agora explico minha preferência pela metonímia: o princípio de contiguidade que a rege exige um olhar muito mais atento para estabelecer a correlação que articula o todo e as partes. Deixemos o mestre Machado de Assis nos mostrar como se faz: 

"Guiomar, que estava de pé defronte dele, com as mãos presas nas suas, deixou-se cair lentamente sobre os joelhos do marido, e as duas ambições trocaram o ósculo fraternal. Ajustavam-se ambas, como se aquela luva tivesse sido feita para aquela mão." (A mão e a luva, 1874 - grifos nossos)

Observemos que maravilhosa forma de colocar em primeiro plano o caráter dos personagens: ao invés de dizer que eram ambos, marido e mulher, ambiciosos, o escritor preferiu dizer que "as duas ambições" se beijaram. Por isso, então, eles se ajustavam perfeitamente como a mão e a luva. Lindo!

E para deixar tudo ainda nos membros superiores, segue uma belíssima canção de Almir Guineto e Zeca Pagodinho, na qual as mãos são também referências metonímicas para pessoas, caracteres e atitudes. Vale a pena conferir!


Márcio Hilário.



domingo, 3 de março de 2013

O USO DOS PRONOMES PESSOAIS ("Filma eu" RJTV)



Recentemente o RJTV, jornal local da Rede Globo de televisão, lançou uma campanha intitulada "Filma eu". Essa expressão, que foi popularizada pelos torcedores dos clubes de futebol durante as transmissões televisivas das partidas, embora seja muito simpática, não está de acordo com o que prescreve a norma culta da língua portuguesa no que se refere ao uso dos pronomes pessoais.

Tais pronomes, de uma maneira geral, têm o papel de substituir o substantivo na frase. No entanto, de acordo com a função sintática exercida por esse substantivo, muda o caso do pronome. Por exemplo, os pronomes pessoais do caso reto - eu, tu, ele, ela, nós, vós, eles, elas - funcionam como sujeito da oração. Por isso, no caso da expressão "Filma eu", como o verbo está na modo imperativo e na 2ª pessoa do singular, o sujeito é Tu, que não está expresso na frase. Sendo "filmar" um verbo transitivo direto, o objeto direto, ou seja, quem deve ser filmado, precisaria ser expresso por um pronome oblíquo. Logo, segundo a norma, o ideal era dizer "Filma-me" ou "Filma a mim" (me: pronome oblíquo átono / mim: pronome oblíquo tônico).

Independentemente da adequação ou inadequação ao que foi prescrito por uma norma, é fundamental que se perceba que a língua é um organismo vivo que oferece muitas possibilidades de uso e de criação, seja repeitando ou subvertendo as regras. O que importa mesmo é que não haja preconceitos ou rótulos. Marisa Monte, por exemplo, já gravou uma belíssima canção chamada "Beija eu", ao passo que Zeca Pagodinho, por sua vez, gravou outra igualmente bela intitulada "Beija-me".


Portanto, é até interessante que o RJTV faça sua campanha do "Filma eu". O que não pode é que as Organizações Globo, quando convém à sua linha político-ideológica, queira bancar uma de defensora do bem falar e do bem escrever da nossa língua, como o fez quando criticou o Enem por, segundo o jornal O Globo, valorizar mais a linguagem coloquial do que o padrão o culto. Enfim, não se pode ficar em cima do muro: ou banca uma visão conservadora e preconceituosa tirando sua propaganda do ar, ou aceita o uso coloquial como legítimo. Não dá é para dizer que o "erro" é sempre dos outros.

Márcio Hilário.